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5 de Agosto de 2021

Mulheres encarceradas: histórias do cárcere.

Uma história com um final inesperado...

Silvimar Charlles, Bacharel em Direito
Publicado por Silvimar Charlles
há 4 meses

E aí pessoal! Tudo certinho?

Depois que foi para o regime semiaberto, Renata não precisou mais escrever cartas e fazer ligações clandestinas para conseguir um namorado. Com a progressão, ganha-se o direito a até cinco saídas temporárias por ano, com duração de até sete dias cada. Saiba o que é (AQUI).

O objetivo é preparar o preso para a reinserção social. Em uma de suas saidinhas (como as presas chamam o benefício), a moça conheceu um rapaz em uma festa, um egresso do Sistema, chamado Maurício.

Eu tinha acabado de chegar, eu e meu filho, ele chegou lá todo se achando. Olhou pra minha cara, e eu bem séria, né, que sou bem séria, fui e cumprimentei ele. E ele chegou: “Ah! Bebi todas, não sei o quê” Já foi lá tipo “sou o Charles Bronson”. Só que eu não dei nem confiança e ele saiu andando.

Fiel a seu novo estilo de vida, Renata foi à igreja. Subiu no púlpito a convite do pastor e foi partilhar seu testemunho. Contou, emocionada, sobre como tinha se transformado através da leitura da Bíblia durante seu castigo, seu “deserto”. Sem constrangimento, chorou ao falar dos filhos, do que esperava do futuro.

No fundo da assembleia, visualizou de novo o rapaz. Não era mais o malandro da festa da noite anterior. Ele parecia comovido com a história dela. Em seus olhos claros miudinhos, ela até aposta ter visto um ponto de umidade. Não parou mais de pensar nele. E ele se esforçou para que ela não parasse mesmo.

Algumas conversas de telefone depois — agora legalmente autorizadas —, Maurício se declarou para ela:

Sempre pedi a Deus pra colocar uma menina boa na minha vida. Sabe o que eu queria?

O quê? Indagou Renata.

Queria namorar com você.

— Não é desse jeito. Tenho que "tirar prova" com Deus primeiro, se for fácil não é coisa dele.

— Quer saber? Amanhã eu vou aí. Você é muito durona! Respondeu Maurício.

Marcaram um encontro ao meio-dia, horário de almoço do trabalho de Renata na oficina de artesanato da Fundação de Amparo ao Trabalhador Preso. Ela colocou sua melhor blusa, um sapato de salto alto e saiu assim que os ponteiros do relógio se encontraram no 12.

Os pés não pareciam levá-la rápido o bastante. Acelerou os passos, ignorando o incômodo dos sapatos, pisou mais forte no chão. No meio do caminho, o salto quebrou. Merda! Pelo menos, ela havia chegado ao lugar. Melhor quebrar um sapato do que um pé.

Procurou Maurício com um olhar urgente. Ele não havia chegado. Sem medo de parecer interessada demais, ligou em seu celular várias vezes. Sem resposta, ouviu até o fim cada mensagem da caixa postal.

Renata ficou zangada com o "bolo" que levou de Maurício...

Meu filho, tu tá de brincadeira comigo?”, pensou.

Deu 12h15. Ficou mais nervosa. Parada debaixo de uma árvore, ela sentiu o estômago embrulhar, pressentindo a decepção. Então foi premiada com um enorme cocô de pombo na roupa nova. Começou a chorar, arrancou o sapato do pé e ficou se sentindo meio ridícula, entre lágrimas, fezes e perneta de sapato.

Insistiu. Às 12h30 a mãe dele atendeu o celular. Explicou que Maurício havia esquecido o aparelho em casa e que a estava esperando no lugar errado. A senhora até tentou intermediar a conversa dos dois, entre uma ligação de orelhão e outra, mas quando o relógio marcou 12h45 Renata disse que não podia mais esperar, com aquela rigidez de horário que só os presos do regime semiaberto conhecem no Brasil:

Preciso ir, senão vão achar que fui foragida. Se ele quiser, ele me encontra 16h30, quando eu sair.

Voltou ao trabalho, lavou a mancha e colocou a blusinha, religiosamente, no cabide, para que não sujasse novamente até o fim do dia. Fez um remendo no sapato. Cuidou de cada detalhezinho com o esmero que as mulheres aprendem a ter num primeiro encontro.

O coração ficou agitado no resto da tarde e o trabalho mal a distraía da ansiedade. Ficou imaginando cenas de filmes românticos, pensando em como seria o calor de seus lábios, a força de seus abraços, a doçura de seus carinhos... Às três da tarde, mais ou menos, os devaneios foram interrompidos pelo barulho da chuva forte batendo no telhado. Para ela, tudo parecia sinfonia.

Uma hora depois, porém, uma das garotas da oficina chega com cara de mau presságio:

Foi você que deixou a blusinha no banheiro?

Deixei.

Então, tem uma pingueira ali, menina, molhou toda sua blusa.

Não era possível. Tirou a umidade da roupa no ferro e saiu correndo. Achava que ele devia ter ido embora. Quem seria louco de esperar debaixo daquela chuva? Para se certificar, ligou para a mãe dele novamente:

Mas a mãe de Maurício deu uma resposta inesperada...

Ele tá lá minha fia, mas corre que ele quase foi preso. Teve um assalto nas redondezas e o polícia viu ele dando sopa por perto e puxou os antecedentes. Viu que tinha ficha e queria prender ele!

Quando Renata chegou, Maurício estava lá. O policial havia concluído que ele não estava envolvido com o crime. Os dois se viram e começaram a rir.

Você fez prova com Deus? — ele perguntou.

Eu fiz. Precisa de resposta?

Não precisa.

Começaram a namorar naquela hora.

O Maurício é bem alto, magrelinho, tadinho, que estava doente, tem quase 1,90m. Tem olho verde, cabelinho preto liso, moreno jambo. Ele vai lá me visitar e, aos meus olhos, tá ótimo. Bonito, gosto de homem alto do olho claro. Ele é só magrelinho, mas quando eu casar, eu engordo ele. E eu tenho um namoro assim, as pessoas pode até duvidar, mas não é de cama, é namoro mesmo.

Porque nós somos servos de Deus e tem que se comportar de tal maneira. Apesar de eu não ser nenhuma criança e ele também não, chega do que eu e ele fizemos de errado nas nossas vidas, né?

No caso de Renata, a religião deu uma forcinha para o Estado.

Da história

Que bom uma história com um final feliz né? Entretanto, não é a regra. Essa história com nomes alterados faz parte do livro "Presos que Menstruam" da autora Nana Queiroz, em PDF (AQUI), que conta com maestria relatos surpreendentes e chocantes do encarceramento feminino. O objetivo do artigo é o mesmo do livro: chamar a atenção para o encarceramento feminino. Aqui porém com mais de 1,2 milhão de leitores, em sua maioria, operadores do Direito que atuam diariamente com as mais variadas relações humanas. Se os presos (homens) fazem parte dos grupos dos "esquecidos" da sociedade, imaginem as mulheres que fazem parte da classe dos presos "invisíveis" que menstruam.

Do título

O titulo do artigo é um homenagem ao Grupo Recorte de Teatro que fez uma pesquisa de campo na ala feminina do Conjunto Penal de Feira de Santana-Ba, o maior do Estado da Bahia em extensão e número de vagas. Do resultado da pesquisa produziu-se a Peça "Encarceradas" que relata com brilhantismo, a partir dos dados coletados, a vivência do cárcere feminino. Trecho de 06:00 minutos da peça (AQUI).

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Um forte abraço e até a próxima!!!

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